Suas águas eram estranhas, durante o dia refletiam o céu.
Durante a noite refletiam algo mais distante, alguns afirmavam que eram estrelas.
Outros, que eram lembranças.
Havia ainda os que diziam que, o lago refletia aquilo que cada viajante carregava nas
profundezas da alma.
Numa noite sem lua, ela a Imperatriz, chegou à sua margem.
Governava um território invisível: o lugar onde pensamentos se transformam em
palavras, sonhos em gestos e possibilidades em realidade.
Ao contemplar a água imóvel, percebeu que o lago não mostrava seu rosto.
Mostrava perguntas esquecidas, às vezes evitadas.
Como os caminhos tornaram-se destinos?
Mas naquele instante o vento cessou.
As águas tornaram-se perfeitamente imóveis.
E o Éter revelou-se. Em presença. Com espaço.
O silêncio preenchendo cada momento.
E, daquele silêncio surgiu uma luz descendo das estrelas.
Uma nave atravessava a noite.
Parecia deslizar entre dimensões, como uma folha conduzida
pela correnteza de um rio invisível.
Dela desceu um viajante.
Trazia nos olhos o brilho de mil constelações. E nas mãos, nada.
A Imperatriz estranhou.
— Cruzaste galáxias inteiras e não trouxeste tesouros?
O viajante observou o lago.
— Trouxe perguntas.
— Ainda?
— As melhores sempre sobrevivem às respostas.
Então ambos contemplaram a superfície. Ali podiam ver as estrelas acima.
E as estrelas abaixo.
Nenhuma diferença existia entre elas. O céu parecia mergulhar na água.
A água parecia ascender ao céu.
O viajante sorriu dizendo:
— Grande espelho.
A Imperatriz olhou novamente para o lago.
Percebeu que as águas não revelavam apenas quem as observava.
Revelavam algo simples e imenso.
Que cada descoberta era também uma criação, abria uma nova porta do universo.
Talvez, as estrelas mais distantes e as profundezas dos lagos e oceanos fossem reflexos
da mesma realidade, e travessia para novos mundos que começavam a despertar.
🔹Meditação da Travessia🔹


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